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Bodybuilding - um esporte marginal

Dia do atleta – minha homenagem ao atleta Bodybuilder e Figure - 21 de dezembro de 2005

 

Bodybuilding – esporte marginal

Bodybuilding não é um esporte olímpico. Para alguns, sequer um esporte é. Frederick C. Hartfield discutiu a aceitação do Bodybuilding como esporte olímpico, sugerindo que os preconceitos históricos contra essa atividade vêm sendo paulatinamente superados. Ben Weider, presidente da International Federation of Bodybuilders (IFBB), solicitou a aceitação do BB como esporte olímpico ao presidente do IOC, Lord Killanin, nos início dos anos 70. A resposta foi violentamente negativa (“over my dead body”). Uma década depois disso, a mesma solicitação foi encarada de forma menos negativa por Avery Brundage, então presidente do IOC. Em meados dos anos 80, Juan Antonio Samarach abriu as portas do IOC para o BB. Finalmente, dia 30 de janeiro de 1998, o IOC atribuiu à IFBB o status de “federação reconhecida” e ao BB, o status provisório de esporte reconhecido.

Os argumentos correntes contra o reconhecimento do bodybuilding envolvem duas categorias de preconceitos: o primeiro é ligado ao uso de recursos ergogênicos, particularmente dos esteróides anabolizantes. O segundo diz respeito à natureza não-competitiva da atividade, que tiraria dela o caráter esportivo. O primeiro preconceito ironicamente tem uma relação com a própria marginalidade do esporte: como não é reconhecido como modalidade olímpica, sua prática não é regulamentada e não são aplicados os testes anti-doping que camuflam o uso de bola nos outros esportes (sim, camuflam, quem duvida disso?). O segundo preconceito é tão irracional que consegue ilustrar sem muito disfarce a rejeição a tudo que diz respeito à força em nossa sociedade. Os que defendem esse preconceito acreditam que não existe performance em si no BB: ninguém “executa” uma tarefa qualquer que possa ser medida contra um referencial de desempenho ou adversário contra adversário. De fato: exceto por posar e executar uma coreografia, não há uma ação concorrencial no ato da competição. Quem, no entanto, em sã consciência, consegue defender a idéia de que o BB não é uma atividade de alta performance física? Executada ao longo de meses e anos, cuja única diferença para esportes de ação é que o momento do campeonato não julga a ação, e sim o resultado da performance.

Como muitas atividades rejeitadas pela elite como prática socialmente aceitável para seus pares, o BB tem larga aceitação em certos segmentos da sociedade, particularmente as classes economica e educacionalmente excluídas. Popularizou-se nos Estados Unidos, nos anos 30, quando foi instituido o campeonato Mr. America e a Muscle Beach ganhou a mídia, em Santa Monica. Só décadas mais tarde o esporte alcançou articulação internacional: a International Federation of Bodybuilders foi fundada em 1946 e a National Amateur Bodybuilder’s Association em 1950. Logo apareceram os grandes campeonatos internacionais e o esporte se expandiu para outros países: o Mr. Universe, da NABBA, em 1950, e o Mr. Olympia, da IFBB, em 1965.

Ao mesmo tempo que o esporte se expandia, disseminava-se também o uso indiscriminado dos anabolizantes, estimulado pela competição entre as grandes potências internacionais no contexto da Guerra Fria nos “esportes politicamente corretos” (olímpicos).

Embora o doping seja uma indústria associada a fatores econômicos e políticos de enorme complexidade e presente em praticamente todos os esportes olímpicos, a sua demonização ficou associada ao BB.

Fico pensando se Hartfield estaria certo e estaríamos assistindo uma abertura para o BB no mundo todo. Não há dúvida de que o esporte está crescendo, mas, por enquanto, ainda de forma marginal. Gostaria de pensar que Hartfield tem razão. Acredito que cada prática esportiva de alta performance ocupa o papel de paradigma em algum avanço no controle tecnológico da saúde humana. O BB ocupará seu papel talvez no maior desses avanços: a incorporação e valorização da capacidade funcional força para o bem-estar humano de maneira geral e controle das principais causas de mortalidade e morbidade contemporâneas. No entanto, surgiu uma suspeita sombria na minha cabeça: será que, com essa transformação e apropriação do treinamento de força pelas classes média e alta, os excluidos que hoje têm pelo menos acesso a esse esporte e nele as chances de se expressar, de ter excelência e de gozar de aceitação não serão expulsos de mais esse paraíso?

 

 Dia do atleta – minha homenagem ao atleta Bodybuilder e Figure - 21 de dezembro de 2005

 

Hoje é dia do atleta. Provavelmente a midia fará uma cobertura moderada, porem razoável, dos esportes mais populares (futebol, basquete, volei, atletismo) e algumas cuiriosidades. Afinal, midia é midia e o negócio é vender jornal, revista, tempo de TV além de outras coisas menos óbvias.

Aposto 10 contra um que não haverá uma única reportagem sobre bodybuilding e figure, esses esportes de força e hipertrofia que mal e mal merecem da comunidade olímpica e do público em geral o conceito de “esporte”.

Já escrevi aqui sobre a luta pela inclusão do BB pelo Comitê Olímpico Internacional entre os esportes olímpicos; também já escrevi sobre a natureza desse esporte e do preconceito contra ele.

Hoje quero escrever sobre o atleta de BB e Figure.

Tentei achar na literatura acadêmica alguma publicação a respeito – achei duas, uma usando a biografia de um atleta conhecido para denegrir o esporte, outra simplesmente sobre questões técnicas quanto a pesquisa qualitativa.

Então resolvi ser menos pretensiosa e falar um pouco da minha relação com esse esporte e esses atletas. Sobre o que vi até hoje e o que me ensinaram.

Em primeiro lugar, não tenho dúvidas em dizer que o BB/Figure é o esporte que mais exige disciplina e dedicação. Alguns técnicos e atletas americanos as comparam com a rotina dos atletas olímpicos e afirmam que nenhum chega perto.

O atleta de BB/Figure precisa seguir uma rotina de treinamento muito rigorosa e bem planejada. A precisão desse planejamento é crucial. Pequenos desajustes em intensidade, frequência e volume geram estagnação ou overtraining. Encontrar o equilíbrio é uma arte, ou melhor, o exercício de um conhecimento técnico raro e dificil de adquirir. Cada organismo, cada atleta tem suas peculiaridades e ele mesmo com seu técnico precisam monitorar essa máquina biológica nos mínimos detalhes para buscar esse ponto de equilibrio, que, para desespero de todos está sempre mudando. Atletas sem a menor formação profissional nas ciências biológicas acabam dominando conceitos complexos em fisiologia, nutrição, bioquímica e farmacologia que levamos anos estudando na universidade porque, para eles, esse conhecimento é a diferença entre o sucesso e a derrota, entre a saúde e desordens graves.

Não há nenhum outro esporte em que a alimentação seja uma parte tão essencial da performance. A dieta do atleta de BB/Figure é rigorosa, bem cuidada e individualizada. Dois atletas não comem a mesma coisa, pois estão em fases diferentes de treinamento, pesam diferente, têm diferentes demandas. Precisam aprender a se relacionar com comida de uma maneira muito mais objetiva e cuidadosa. Existem momentos certos para muito rigor (pre-contest), fases para mais abundância (off) e fases para se enfiar o pé na jaca (off total, ou, como diz minha amiga Dôra, “foffis”).

O que aprendi com esses atletas, nesse tocante, foi, em primeiro lugar, algo que às vezes levamos uma vida buscando e não encontramos: equilíbrio e respeito às prioridades. Comer, treinar, trabalhar, dormir têm lugar certo na vida e precisam ser respeitados para que ela seja (parece idiota escrever isso) BOA, no sentido de dar prazer, permitir um senso geral de satisfação, bem-estar físico e mental e paz. Em segundo lugar, aprendi que o conhecimento é menos compartimentado do que se ensina por aí. Meu prato pode conter alface, azeite, sal, limão, macarrão, tomate, cebola, peito de frango e brócoli, mas ao mesmo tempo contem 10% de proteína total, 15% de gordura, 65% de carboidrato, 20mg de cálcio, etc., etc. Treino, fico cansada, mas também fico com 80% de cortisol adicional, de modo que para mim é prioritário descansar, me nutrir e tomar vitamina C.

Aprendi com os atletas de BB/Figure a olhar meu corpo em camadas de informação e a usar de fato um conhecimento que eu até sempre tive.

Se todo esporte ensina a controlar a frustração, a investir com a perspectiva de uma recompensa tardia, nenhum o faz como o BB/Figure. O momento do campeonato, em si, é apenas o coroamento de meses e até anos de investimento e performance. A performance, em si, ocorre fora do palco. O atleta de BB/Figure é um campeão o ano todo – ele apenas leva o troféu no dia do campeonato.

O atleta de BB/Figure se realiza no treino, tem prazer em executar seus exercícios e é um exemplo para iniciantes que muitas vezes encaram a musculação como uma obrigação desagradável. O atleta ilustra e demonstra como o exercício de força, bem executado, produz reações fisiológicas e psicológicas altamente prazerosas.

Mas o atleta de BB/Figure sofre todo tipo de preconceito. Em primeiro lugar, sequer é considerado atleta. É acusado de ser apenas um narcisita, como se todo o investimento em treino e nutrição fosse equivalente a uma cirurgia plástica ou outro tratamento estético. Em parte por responsabilidade da midia, que não divulga o esporte como tal.

Em segundo, adere a uma estética no mínimo alternativa, na pior das hipóteses, abertametne marginal. Eles têm músculos volumosos e bem-definidos e, em mulheres, a diferença entre a sedentária e a atleta pode ser tão gritante que a última parece ter partes do corpo que a outra não tem. Em vez de enxergar nisso a tragédia do desuso (das sedentárias), a comparação é vista como o escândalo da deformação. Ou seja: não são elas as deformadas por deixarem atrofiar o que está lá, mas nós por usarmos o que nossa natureza nos deu.

A vida sexual dos atletas de BB/Figure é infinitamente superior a dos indivíduos não treinados e bastante melhor do que de outros atletas. É natural: temos mais testosterona, nos nutrimos melhor, temos mais vitalidade. Não preciso dizer como sabemos disso: todo atleta um dia foi não-atleta. Já os não-atletas não têm com que comparar...

O atleta de BB/Figure tem muito a contribuir para a sociedade como um todo, como todo o praticante de uma atividade de alta performance. No entanto, acho que tem mais a contribuir, porque a performance, no caso, é em força e hipertrofia. Já comentei sobre a importância dessas capacidades e sobre o prejuízo que sua marginalidade acarreta.

Eu ainda não competi, mas se tudo der certo, ainda vou. Se não tinha muita certeza antes, ganhei estímulo novo quando conheci a Claudia, a quem dedico essa homenagem e concluo esse post. Claudia Peçanha é uma atleta de Figure, campeã da última Copa Corpo e Saúde, realizada em Guarulhos, dia 11 de dezembro, e vice-campeã do campeonato Mr. Santos, uma semana antes. Claudia vive no Rio de Janeiro, onde é personal trainer e proprietária de uma academia. Tem 44 anos e é mãe de Laila, uma menina de 16 anos que faleceu há cinco meses. Cláudia dedicou sua vitória à filha. Só uma super-atleta, uma super-mãe e uma grande mulher seria capaz de se recuperar da pior de todas as perdas de um ser humano e dignificar ao mesmo tempo a memória de sua filha e esse grande esporte.

Que ela sirva de exemplo para todos nós.