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O aRQuiVO BiPolAR - meus artigos sobre desordem bipolar

Links em saúde mental

Bibliografia sobre desordens olfativas e neuro-psicologia do olfato

Grupos de apoio a desordens e condições variadas

Alguns artigos meus (outros estão nos blogs)

Bibliografia sobre desordem bipolar

Meditação, práticas alternativas e saúde mental (primeira parte: meditação)

Bibliografia sobre tai-chi chuan e saúde em geral

Bibliografia sobre ensaio mental (mental rehearsal)

 

 

Coisas de cabeça: saúde mental, desordem mental e atividade física

Chegamos ao Uroboros - a cobra que morde o próprio rabo. O sentido final e inicial de tudo que fiz até aqui, e talvez do que tenha vindo fazer nesse planeta. Desde que esse site e blog foram criados, em Setembro de 2005, textos e links têm sido direcionados para uma grande agenda: a agenda da CONSTRUÇÃO e da INTEGRAÇÃO. Para sermos e nos mantermos humanos, é preciso que estejamos inteiros, integrados e construídos. Somos corpos - corpos que se movem, que pensam, que sentem, que amam, que sofrem e que se desintegram. Quando se desintegram, estão doentes e precisam novamente ser construídos. A força é a base do movimento, o músculo a estrutura da ação e Bodybuilding significa CONSTRUÇÃO DO CORPO. Por isso estes são os focos de tudo: minha produção, minha ação e minha missão. Esta página está sendo construída dia 13 de março de 2006, aproximadamente dois anos depois do início da minha trajetória de... body... building (construção do corpo, embora, como atleta, eu seja uma POWERLIFTER ou basista).

Eu sou portadora de uma forma grave de desordem bipolar. Sobrevivi a uma vida de auto-destrutividade e a anos de tortura famacológica nos braços medievais da psiquiatria. Devo essa sobre-vida a ter conseguido identificar no treinamento de força a única forma para controlar as expressões mais letais dessa doença.

Boa parte dos textos deste site e blog aponta o caminho integrativo da atividade física, mas infelizmente é preciso admitir que não existem bases sólidas em evidência científica para argumentar a favor dessa estratégia como profilaxia ou tratamento de desordens mentais graves. Tudo que tenho é minha própria experiência e depoimentos  anônimos de pouquíssimos outros portadores que foram bem-sucedidos em caminhos semelhantes. Quase não existem histórias de sucesso de verdade no controle de desordens mentais graves, com QUALQUER TRATAMENTO.

Eu tenho uma opinião bastante enfática quanto ao papel nefasto da indústria farmacêutica e seu braço acadêmico, a psiquiatria mainstream. Acredito que é do interesse dominante que as coisas se mantenham assim e os doentes, bem... doentes. Naturalmente que não estou afirmando que O PSIQUIATRA individualmente é um profissional interessado no fracasso dos tratamentos ou no sofrimento de seus pacientes. Acho que os psiquiatras pertencem a uma cultura intelectual como qualquer outro profissional especializado. Culturas profissionais são coercivas e exercem essa coerção de forma muito eficiente. Nesse caso, questionar o papel central do medicamento no tratamento de desordens graves é rigorosamente transgressivo e beira o charlatanismo para esse grupo.

Consequentemente, não se fazem pesquisas sobre possíveis alternativas em tratamento. Pouca coisa é estudada sobre o papel da atividade física no tratamento psiquiátrico e, mesmo assim, apenas como adjuvante, nunca como tratamento primário.

Não é verdade que não existam pacientes refratários a tratamento medicamentoso. Para ser sincera, acredito que a maioria o é. Participei por anos de foruns internacionais de portadores de desordens graves. A maioria passou pela mesma via crucis que eu, em geral pior: fizeram uso de dezenas de diferentes fármacos, em centenas de combinações diferentes. Boa parte era aposentada por invalidez, prova de que a doença ganhou. E todos sofriam, e muito, com gravíssimos sintomas, fortemente agravados pelos efeitos colaterais das drogas a que eram submetidos.

Muitos amigos e alguns desconhecidos têm me estimulado a escrever sobre minha experiência. Na ausência de qualquer pesquisa, pelo menos o acúmulo de evidência anedótica, sob a forma de depoimentos como o meu, talvez contribua, ainda que minimamente, para chacoalhar a ditadura da indústria farmacêutica e da alienação corporal.

Inauguro essa página com essa perspectiva.

 

13 de março de 2006

 
"O grito", de Edvard Munch, 1893. National Galery, Oslo.

 

 

Artigos meus

 

Formas mais assustadoras de alienação corporal

Indigência psiquiátrica

Sobrepeso e desordem mental

Primeiras idéias sobre suicídio

Cheiros 1: Phantosmia, dysosmia, ou os odores que ninguém cheira mas você sente mesmo assim

 

Formas mais assustadoras de alienação corporal (http://mariliacoutinho.livejournal.com/12315.html)

Num dos últimos dias do ano passado, saí para jantar com um amigo. Ele havia ficado sumamente preocupado com minha decisão de abandonar o uso de medicamentos.
“Mas e os riscos?”
“Sim, existem, são sérios.”
“Mas como você assume riscos, assim, contra a recomendação de um profissional?”
“Simples: o critério é a minha felicidade. Passei uma vida infeliz, com um ano razoável, o ano de 1977, quando pratiquei meu esporte de eleição de forma quase profissional, muitas horas por dia. Depois disso, voltei a ser feliz novamente em 2004, quando passei novamente a praticar meu esporte de maneira intensa, sem utilizar nenhum medicamento. Vida com atividade física, feliz. Vida sem atividade física, infeliz. Vida com medicamento, infeliz. Vida sem medicamento, feliz. Simples.”
“Mas e se você morrer?”
“Daí morri. Não importa. O que importa é viver. Portanto, faço o que devo para viver bem – a morte, bem, foda-se a morte.”
“Mas isso é absurdo!”
“Não, não é. Eu estou feliz assim e isso é o que importa.”
“Mas não é você que tem que saber isso.”
”Não??!! Quem pode saber se eu estou feliz, então, se não eu??”
“Um profissional.”
”Um profissional????!!! Como assim??”
“Um profissional, um psiquiatra é quem deve saber...”
”Um psiquiatra tem autoridade para dizer se eu estou FELIZ ou INFELIZ?????”
“Sim, ele sabe fazer as perguntas certas e...”
“Não, sério: você jura que seriamente acredita que um outro indivíduo, fora você, tem competência e autoridade para declarar se você está ou não está FELIZ???”
“Sim... não...”
Diante da minha incredulidade, espanto e até sorriso de quem estava se divertindo com o ridículo da afirmação, meu amigo deu uma recuada. Meu amigo é uma das pessoas mais inteligentes que conheço, cientista brilhante, de grande prestígio. Ao longo da nossa conversa, adotou um tom menos normativo, mas sua primeira reação é o que importa para essa crônica, porque foi espontânea e reflete uma atitude automática dos membros da nossa elite simbólica (quem profissional e oficialmente pensa “na” e “a” nossa sociedade). E isso é assustador: não apenas permite-se à psiquiatria patologizar comportamentos coletivos e culturalmente codificados, coisa que denunciei em outro post, como, percebo, se delega a ela a autoridade sobre questões de natureza inalienavelmente pessoal e individual, de caráter ético, existencial e profundamente íntimo.
Isso, sim, é assustador.
Isso, sim, reflete o avanço de uma pseudo-disciplina, movida por agendas ocultas das mais perversas (inclusive aquelas que partilha com a indústria farmacêutica), para a esfera do controle dos comportamentos individuais.
Isso é Big Brother.
Isso é a total e completa alienação de nós mesmos – de nosso sexo, nossos músculos, nossos estômagos, nossas formas e, finalmente, nossos cérebros.
 

Indigência psiquiátrica (http://mariliacoutinho.livejournal.com/9459.html)

Hoje será um post curto, apenas um comentário sobre o que agora me parece regra na psiquiatria, que é patologizar todo e qualquer comportamento que seus praticantes considerem “desviante”. São as chamadas “new adictions” e novas compulsões. Anteontem, uma colega de trabalho me chamou atenção para a “ortorexia”, que seria o disturbio obsessivo de observar a qualidade nutricional do alimento. Ainda estou examinando os artigos originais publicados sobre “dependência de fisiculturismo” (bodybuilding dependence) para comentar. Cada parágrafo me impressiona com o grau de naivité preconceituosa. Me dou conta de que esses pesquisadores se aproximaram da cultura bodybuilder como eu me aproximaria de uma sociedade inuit: sem a menor familiaridade com seus hábitos culturais. Mas se eu me aproximasse de uma cultura inuit, teria consciência dessa incomensurabilidade e teria um olhar generoso quanto à minha própria ignorância. Me recusaria a “traduzir” para o “equivalente ocidental” cada hábito ou comportamento e procuraria observar, mais que entender, cada hábito dentro de seu contexto. É o mínimo que poderia fazer para fazer justiça com o esforço que meus professores de antropologia fizeram para nos oferecer o legado dessa grande disciplina.
Mas a psiquiatria sofre de uma miopia e pobreza de elementos analíticos desconsertante, associada a uma insuportável arrogância quanto a seu status médico. É patético observar o quanto o mainstream psiquiátrico não se dá conta de estar penetrando na seara antropológica, armada de todos os instrumentos do preconceito e intelectualmente desprovida de ferramentas para dar conta dos problemas que se coloca. Não se dá conta de que é ridículo patologizar comportamentos socialmente construídos e compartilhados e não percebe que a compulsão por arrancar cabelos não tem nenhuma, mas nenhuma relação com a preocupação de um atleta quanto ao ganho simétrico ou não de massa muscular, que faz com que ele se observe no espelho da academia.
É como se a psiquiatria entrasse, ela mesma, num surto obsessivo pela defesa inútil de uma sociedade pasteurizada e homogênea. Enquanto isso, a nossa se diversifica e se complexifica a extremos que desafiam ciências mais sofisticadas, como as cognitivas, a antropologia e outras que enfrentam as novas realidades sociais.
Eu acharia apenas patético, se não considerasse perigoso. Perigoso porque existe poder concentrado nas mãos dessa comunidade que, cientificamente, é tão obscurantista e conservadora.
 

Sobrepeso e desordem mental (http://mariliacoutinho.livejournal.com/7476.html)

Vários estudos nas últimas decadas registraram uma relação entre obesidade e psicopatologia. Num estudo de 1994, Telch e Agras (Telch CF, Agras WS., Obesity, binge eating and psychopathology: are they related?, Int J Eat Disord. 1994 Jan;15(1):53-61.) identificaram uma relação positiva entre as gravidades de “binge eating disorder” e dos sintomas psiquiatricos observados. Um outro estudo longitudinal de grande impacto, realizado ao longo de 20 anos e publicado o ano passado, confirmou a forte associação entre sobrepeso e psicopatologia (Psychol Med. 2004 Aug;34(6):1047-57.The associations between psychopathology and being overweight: a 20-year prospective study. Hasler G, Pine DS, Gamma A, Milos G, Ajdacic V, Eich D, Rossler W, Angst J.). Num estudo de 1999, Cassidy e colaboradores identificaram uma alta prevalência de diabetes melitus entre pacientes portadores de desordem bipolar (Cassidy F, Ahearn E, Carroll BJ., Elevated frequency of diabetes mellitus in hospitalized manic-depressive patients. Am J Psychiatry. 1999 Sep;156(9):1417-20.). Além disso, entre os bipolares, os diabéticos sofriam sintomas mais graves. Três hipóteses foram levantadas para explicar esse quadro: problemas relacionados com o uso de corticóides por diabéticos (que estimulariam mania), fatores genéticos associando duas formas de disfuncionalidade e efeito dos medicamentos psicotrópicos. Não foram relatados os dados relativos ao peso e composição corporal desses pacientes, nem tampouco a correlação entre essas variáveis (peso/composição corporal, consumo de psicotrópicos, diabetes e gravidade dos sintomas). Fica difícil ir muito longe sem essa análise.
Por trás dessa relação perversa entre sobrepeso e desordem mental existem tabus. O primeiro e mais complicado deles diz respeito ao uso de psicotrópicos. Uma vez, um paciente grave (aposentado por invalidez), dos Estados Unidos, me disse: “vamos parar com a hipocrisia: exceto por topamax (topiramato) e lamictal (lamotrigina), todo o resto dessas coisas vai estufar você”. Ele tem razão: com raríssimas exceções, os medicamentos psicotrópicos causam duas coisas: ganho de peso (e ninguém tem interesse em identificar as causas desse ganho) e diminuição da libido (conveniente a todos, já que doido não tem que trepar, mesmo). Pacientes adultos portadores de desordem mental, hoje em dia, com a prescrição selvagem e indiscriminada de psicotrópicos, geralmente não são mais “farmacologicamente virgens”: são ou já foram tratados. A relação entre o consumo presente ou passado dessas substâncias e o ganho de peso não é estudada – é tabu.
O outro tabu é a expressão, no corpo, de formas de violência. A relação entre desordem mental e abuso (infantil ou não) é alta. Reagir ao abuso através da deformação do próprio corpo com sobre-alimentação é outra relação conhecida, mas não estudada adequadamente.
Existem outros tabus, que se complicam pela relação com a sexualidade, mas esses eu deixo para depois.
Por que tabus? Porque não convem nem à comunidade médica nem à indústria farmacêutica trazê-los à luz. São assuntos proibidos. O “custo” em quilos de gordura inútil (e consequentemente em auto-imagem, sexualidade, etc.) para a “estabilização” (sempre questionável) emocional proporcionada pelos psicotrópicos é algo com o que os pacientes devem docilmente arcar, sem reclamar, sob risco de serem violentamente repreendidos pela sociedade. A começar por seus médicos.
Quanto tempo vamos aguentar, coniventes, essa violência silenciosa?
 

 

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