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O aRQuiVO BiPolAR - meus artigos sobre desordem bipolar Meditação, práticas alternativas e saúde mental (primeira parte: meditação)
Coisas de cabeça: saúde mental, desordem mental e atividade física
Eu sou portadora de uma forma grave de desordem bipolar. Sobrevivi a uma vida de auto-destrutividade e a anos de tortura famacológica nos braços medievais da psiquiatria. Devo essa sobre-vida a ter conseguido identificar no treinamento de força a única forma para controlar as expressões mais letais dessa doença. Boa parte dos textos deste site e blog aponta o caminho integrativo da atividade física, mas infelizmente é preciso admitir que não existem bases sólidas em evidência científica para argumentar a favor dessa estratégia como profilaxia ou tratamento de desordens mentais graves. Tudo que tenho é minha própria experiência e depoimentos anônimos de pouquíssimos outros portadores que foram bem-sucedidos em caminhos semelhantes. Quase não existem histórias de sucesso de verdade no controle de desordens mentais graves, com QUALQUER TRATAMENTO. Eu tenho uma opinião bastante enfática quanto ao papel nefasto da indústria farmacêutica e seu braço acadêmico, a psiquiatria mainstream. Acredito que é do interesse dominante que as coisas se mantenham assim e os doentes, bem... doentes. Naturalmente que não estou afirmando que O PSIQUIATRA individualmente é um profissional interessado no fracasso dos tratamentos ou no sofrimento de seus pacientes. Acho que os psiquiatras pertencem a uma cultura intelectual como qualquer outro profissional especializado. Culturas profissionais são coercivas e exercem essa coerção de forma muito eficiente. Nesse caso, questionar o papel central do medicamento no tratamento de desordens graves é rigorosamente transgressivo e beira o charlatanismo para esse grupo. Consequentemente, não se fazem pesquisas sobre possíveis alternativas em tratamento. Pouca coisa é estudada sobre o papel da atividade física no tratamento psiquiátrico e, mesmo assim, apenas como adjuvante, nunca como tratamento primário. Não é verdade que não existam pacientes refratários a tratamento medicamentoso. Para ser sincera, acredito que a maioria o é. Participei por anos de foruns internacionais de portadores de desordens graves. A maioria passou pela mesma via crucis que eu, em geral pior: fizeram uso de dezenas de diferentes fármacos, em centenas de combinações diferentes. Boa parte era aposentada por invalidez, prova de que a doença ganhou. E todos sofriam, e muito, com gravíssimos sintomas, fortemente agravados pelos efeitos colaterais das drogas a que eram submetidos. Muitos amigos e alguns desconhecidos têm me estimulado a escrever sobre minha experiência. Na ausência de qualquer pesquisa, pelo menos o acúmulo de evidência anedótica, sob a forma de depoimentos como o meu, talvez contribua, ainda que minimamente, para chacoalhar a ditadura da indústria farmacêutica e da alienação corporal. Inauguro essa página com essa perspectiva.
13 de março de 2006
Formas mais assustadoras de alienação corporal Primeiras idéias sobre suicídio Cheiros 1: Phantosmia, dysosmia, ou os odores que ninguém cheira mas você sente mesmo assim
Formas mais assustadoras de alienação corporal (http://mariliacoutinho.livejournal.com/12315.html)
Num dos últimos dias do ano passado, saí
para jantar com um amigo. Ele havia ficado sumamente preocupado com minha
decisão de abandonar o uso de medicamentos. Indigência psiquiátrica (http://mariliacoutinho.livejournal.com/9459.html)
Hoje será um post curto, apenas um
comentário sobre o que agora me parece regra na psiquiatria, que é patologizar
todo e qualquer comportamento que seus praticantes considerem “desviante”. São
as chamadas “new adictions” e novas compulsões. Anteontem, uma colega de
trabalho me chamou atenção para a “ortorexia”, que seria o disturbio obsessivo
de observar a qualidade nutricional do alimento. Ainda estou examinando os
artigos originais publicados sobre “dependência de fisiculturismo” (bodybuilding
dependence) para comentar. Cada parágrafo me impressiona com o grau de naivité
preconceituosa. Me dou conta de que esses pesquisadores se aproximaram da
cultura bodybuilder como eu me aproximaria de uma sociedade inuit: sem a menor
familiaridade com seus hábitos culturais. Mas se eu me aproximasse de uma
cultura inuit, teria consciência dessa incomensurabilidade e teria um olhar
generoso quanto à minha própria ignorância. Me recusaria a “traduzir” para o
“equivalente ocidental” cada hábito ou comportamento e procuraria observar, mais
que entender, cada hábito dentro de seu contexto. É o mínimo que poderia fazer
para fazer justiça com o esforço que meus professores de antropologia fizeram
para nos oferecer o legado dessa grande disciplina. Sobrepeso e desordem mental (http://mariliacoutinho.livejournal.com/7476.html)
Vários estudos nas últimas decadas
registraram uma relação entre obesidade e psicopatologia. Num estudo de 1994,
Telch e Agras (Telch CF, Agras WS., Obesity, binge eating and psychopathology:
are they related?, Int J Eat Disord. 1994 Jan;15(1):53-61.) identificaram uma
relação positiva entre as gravidades de “binge eating disorder” e dos sintomas
psiquiatricos observados. Um outro estudo longitudinal de grande impacto,
realizado ao longo de 20 anos e publicado o ano passado, confirmou a forte
associação entre sobrepeso e psicopatologia (Psychol Med. 2004
Aug;34(6):1047-57.The associations between psychopathology and being overweight:
a 20-year prospective study. Hasler G, Pine DS, Gamma A, Milos G, Ajdacic V,
Eich D, Rossler W, Angst J.). Num estudo de 1999, Cassidy e colaboradores
identificaram uma alta prevalência de diabetes melitus entre pacientes
portadores de desordem bipolar (Cassidy F, Ahearn E, Carroll BJ., Elevated
frequency of diabetes mellitus in hospitalized manic-depressive patients. Am J
Psychiatry. 1999 Sep;156(9):1417-20.). Além disso, entre os bipolares, os
diabéticos sofriam sintomas mais graves. Três hipóteses foram levantadas para
explicar esse quadro: problemas relacionados com o uso de corticóides por
diabéticos (que estimulariam mania), fatores genéticos associando duas formas de
disfuncionalidade e efeito dos medicamentos psicotrópicos. Não foram relatados
os dados relativos ao peso e composição corporal desses pacientes, nem tampouco
a correlação entre essas variáveis (peso/composição corporal, consumo de
psicotrópicos, diabetes e gravidade dos sintomas). Fica difícil ir muito longe
sem essa análise.
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