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Sister Steel
Idéias sobre mulheres de aço num mundo de chumbo
Leia aqui ou siga os títulos abaixo.
Corações de pedra, mulheres de aço e tempos de chumbo
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Corações de pedra, mulheres de aço e tempos de chumbo
Eu nasci em 1963, numa família que já contava com 2 meninos de respectivamente 14 e 12 anos e uma menina de 10. Com meus irmãos mal começando a perceber o mundo grande que condicionava tudo que ouviam e sentiam, estourou o golpe militar no ano seguinte aqui no Brasil. Meu irmão mais velho colecionou recortes de jornal, com uma percepção difusa de que aquilo não era nem passageiro, nem trivial.
O mundo lá fora, das coisas, da política e do pensamento, também dava um daqueles passos mais rápidos que de vez em quando a história dá. A histórica passeata de 200.000 pessoas onde Martin Luther King fez seu discurso sobre o sonho (“I have a dream”) aconteceu, John Kennedy foi assassinado em Dallas e Betty Friedan, a mais notória feminista, publicou seu The Feminine Mystique.
Era um mundo de muitos confrontos, movimentos em sentido oposto, de grandes mudanças e muita resistência a elas.
Dez a quinze anos depois, o mundo todo havia se tornado mais sinistro e a euforia ingênua do inicio dos anos 60 se foi. Como disse John Lennon, o sonho havia acabado. Em 1972 o Clube de Roma publicou a obra mais catastrofista do século, Limits to Growth, que previa um futuro negro para o planeta se as relações da sociedade com o ambiente se mantivessem inalteradas. Em 1973 ocorreu o mais sangrento golpe de Estado da América Latina no Chile e o continente submergiu no medo e no silêncio. O movimento feminista evoluiu menos para um amadurecimento de propostas e mais para uma pulverização de perspectivas, deixando as novas gerações de mulheres órfãs de modelos e idéias.
Nesses anos de chumbo eu saí da infância e passei a me dedicar à complicada tarefa de construir para mim mesma uma identidade feminina.
Herdei a responsabilidade de fazer a revolução, de resistir ao que a esquerda oficial me vendeu como um reprovável padrão de comportamento feminino, supostamente associado a valores dominantes, e de abrir mão de minhas paixões e prazeres em nome de confusas noções de obrigações com a humanidade.
Essas heranças se transformaram rapidamente em armadilhas letais. Essa mesma esquerda organizada em partidos, que de compromisso com a justiça social, liberdade e tolerância não tinha e não tem nada, foi o maior obstáculo para que eu tivesse algum acesso ao que quer que fosse minha feminilidade e meu corpo. Dentro desses partidos, fui humilhada, fui (literalmente) estuprada e sobrevivi com muitos danos a todas as tentativas de esmagar minha identidade feminina.
Eventualmente me desvencilhei dos tentáculos deste monstro, mas como boa parte das mulheres da minha geração, fui caindo em muitos outros.
Hoje, depois de muitas mutilações e pedaços perdidos por caminhos escuros e escorregadios, acho que encontrei alguma paz e uma enorme estrada pela frente levando ao desconhecido. Não sei onde ela vai dar, nem que mulher é essa, eternamente em construção, como meu website, vai resultar a cada etapa. Novidade para mim, novidade para o mundo.
Num jeito aparentemente mais duro, hardcore, feito mais de aço e ferro do que de algodão cru, encontrei minha suavidade. Vejo os homens com menos ressentimento, menos desconfiança, mas também com mais melancolia. Mais centrada nesse “núcleo duro”, tenho tido mais ouvidos para as vozes das minhas contemporâneas e aprendido com elas. Mas também tenho aprendido com eles – esses homens, fontes tão constantes do meu medo, da minha curiosidade, da minha perplexidade e da minha esperança.
Do mesmo jeito que nós, grups, talvez estejamos inventando uma nova maneira de ser adultos, sem esterilizar nossas paixões e a interação com nossos filhos, queria ter a esperança de que essa geração de mulheres pudesse inventar uma nova maneira de carregar essa pesada carga de duplo X.
Eu quero falar sobre isso tudo. Dê no que dê.