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O corpo desfigurado - doença e mutilação
A besta humana e o corpo doente
A besta humana e o corpo doente (http://mariliacoutinho.livejournal.com/12250.html)
texto inserido no blog dia 2 de janeiro de 2006
No último dia do ano, fui almoçar com uma
amiga perto da minha casa, que fica perto da USP. Ficamos batendo papo até as
16h, quando peguei meu carro e fui para casa. Ela pegou a moto dela e nem chegou
até a esquina quando um motorista num Pejault entrou na sua traseira. Minha
amiga caiu, esfolou e cortou as pernas e deve ter tido alguma outra lesão de
partes moles. Obviamente ficou muito chocada, mas teve a presença de espírito de
ligar para mim. Eu nem tinha alcançado meu condomínio ainda, fiz meia-volta e
encontrei-a toda suja e rasgada na avenida, com o motorista e a polícia por
perto. O motorista tentava insistir que não tinha culpa, ela estava nervosíssima
e machucada e eu combinei com os policiais que a levaria ao hospital e depois à
delegacia. Levei-a à Emergência do H.U. (Hospital Universitário), onde desci com
ela na cadeira de rodas (minha técnica já conhecida para enfatizar a gravidade
da lesão e assim acelerar o atendimento) e entramos.
A Emergência não estava bombando como já vi em outros tempos. Acho que haviam
umas cinco camas ocupadas e uns quatro pacientes indo e vindo, com lesões leves.
Muitos médicos, residentes e estudantes circulavam por ali. Vinham em grupinhos
de dois ou três para dar uma olhada. Vários grupinhos “deram uma olhada” antes
de pedirem uma radiografia. Minha amiga tinha dor – muita dor. E estava tão
ansiosa que seus dentes rangiam. Nenhum desses sintomas mereceu a menor atenção
por parte de ninguém – médicos ou enfermeiros.
De posse de um pedido de radiografia, eu mesma levei minha amiga para o setor
responsável, onde foram feitas as chapas. Voltamos com elas para a Emergência e
um dos grupinhos examinou-as. Não havia fraturas. Um dos médicos fez uma receita
para um anti-inflamatório e estava encerrando o assunto quando minha amiga
salientou duas coisas: primeiro, que seu corte não parava de sangrar e que ela
sentia cacos de vidro em algumas feridas, que, até o momento, sequer tinham sido
desinfetadas. Segundo, que ela não suportava mais a dor. Não aplicaram nenhum
analgésico ali: nos encaminharam para um outro setor, o setor de medicação, onde
havia uma outra fila. Tentamos esperar a enfermeira para fazer o curativo e
então nos colocar na fila da medicação, mas depois de quase 40 min sem nenhum
atendimento, a dor falou mais alto e fomos atrás do alívio.
Permanecemos cerca de meia-hora na fila até que minha amiga recebesse uma
injeção com analgésico e anti-inflamatório. Ela chorava bastante e lembrou-se
que tinha um Lexotan na carteira. Eu peguei água e ela tomou o comprimido.
De volta à Emergência, ninguém parecia saber o que fazer. Ela pediu atendimento
e as respostas foram todas ríspidas, irritadas, como se ela, toda suja, com
ferimentos expostos e um corte sangrando o tempo todo, estivesse solicitando um
privilégio inadmissível qualquer.
Depois de muito tempo, conseguimos que alguém aparecesse, limpasse o ferimento e
concluísse que ela estava certa e era necessário suturar o corte. Só então
chamaram um cirurgião, que não tinha idéia do que os ortopedistas haviam feito.
E as enfermeiras não podiam se importar menos.
Feita a sutura, finalmente levei-a para a delegacia, onde o atendimento foi
bastante rápido e eficiente.
No meio da via-crucis, minha amiga, chorando, comentou que o problema era o
“sucateamento da saúde pública pelo PSDB”. Nesse momento, e só nesse, eu me
irritei. Me contive, pois ela sofria e me é muito querida. Mas esse discurso é o
que há de absurdo. Nós duas estudamos ao lado daquele hospital. Passamos cinco
longos anos de nossas vidas no Instituto de Biociências, onde nos formamos
biólogas. Depois disso, eu ainda passei mais quase onze anos por ali, entre
mestrado, doutorado e pós-doutoramento. Conheço o H.U., portanto, há 24 anos.
Ele nunca foi melhor – nem pior. Sempre foi a mesma merda. Várias administrações
estaduais se sucederam – nada mudou, nunca.
O que eu observo, com o benefício dos anos, é a constância de algo que vai muito
além do descaso histórico com a saúde pública no Brasil – cujos responsáveis são
muitos e complexos. É o exercício sádico dos “pequenos poderes”. E ele é
particularmente importante quando exercido sobre um corpo doente, mutilado ou,
de alguma outra forma, desabilitado.
Não fui eu que inventei essa idéia dos pequenos poderes, só estou usando. É
simples: quando o indivíduo tem pouco controle da própria vida, é genericamente
frustrado, mal recompensado pelas poucas habilidades que pode desenvolver, a
pequena amplitude de poder que lhe é dada é ABUSADA. Esses são os “pequenos
poderes”. É o caso da imensa maioria de funcionários públicos no Brasil (e
também em outros países). São mal remunerados, praticamente não têm planos de
carreira, sua perspectiva de ascensão social é desprezível... enfim, que vida,
não? E aí a coisa degringola porque os humanos são, mesmo, perversos. Ou pelo
menos o são na nossa sociedade, que é o que importa.
Em hospitais e no sistema de saúde, em geral, a coisa piora. Quem precisa de
atendimento está doente ou mutilado. O corpo desfuncional dá ao indivíduo uma
vulnerabilidade adicional, que estimula o comportamento abusivo dos portadores
de pequenos poderes. É escroto. É nojento. Mas é isso que a gente observa e que
eu passei quatro horas vendo no H.U.
Uma semana antes eu tive que recorrer a atendimento hospitalar também. Só que eu
pago plano de saúde! E fui a um excelente hospital paulista, o São Luiz. Tive
tratamento de primeira qualidade, foram feitos os exames necessários e os
médicos, plantonistas num dia de Natal, eram bons profissionais.
O contraste não podia ser maior.
Nos Estados Unidos, onde morei por seis anos e tive que usar o sistema de saúde
(privado, sempre), o atendimento é horroroso. Todos têm histórias de terror para
contar e eu tenho muitas. Atendimento em emergência hospitalar, só se você
estiver realmente morrendo e morrendo rapidamente. Cirurgia, pode esquecer: a
abundância de erros médicos é enorme, o tempo de recuperação hospitalar foi
reduzido ao ridículo (a ponto de mandar “vítimas” de cirurgias muito invasivas
em dois dias para casa) e, se o hospital tiver algum vínculo com o Estado, o
limite para indenização por erro médico em boa parte dos estados é irrisório.
Nas salas de emergência, a crueldade impera.
Por que seria assim? Eu acredito que lá, onde as companhias seguradoras têm
controle absoluto do sistema nacional de saúde, a ponto de limitar até mesmo o
número e qualidade de exames e intervenções que os médicos podem solicitar, a
coisa degringolou para uma situação semelhante ao nosso sistema público em
termos de dinâmica de atendimento. Os profissionais têm pouco controle sobre o
que fazem, estão instatisfeitos, enfim, exercem seus pequenos e grandes poderes.
Isso somado ao fato de que se trata de uma sociedade onde a hostilidade racial e
religiosa é enorme e as pessoas são de maneira geral defensivas e um pouco
bélicas.
Moral da história: é bom não ficar doente, nunca. Pois é nesse momento de maior
necessidade e vulnerabilidade que encontramos o pior que existe nos humanos.
Cicatrizes e mutilações (http://mariliacoutinho.livejournal.com/10371.html)
texto inserido no blog dia 4 de dezembro de 2005
Uma grande
amiga minha está passando por uma perda corporal grande: uma histerectomia.
Mutilações – perda de pedaços, danos irreversíveis – são uma questão corporal
muito séria. Existem diferentes tipos de mutilação e diferentes respostas.
Existem mutilações acidentais, completamente fortuitas, que obrigam a vítima a
fazer as pazes com o acaso. Precisam fugir da armadilha do “grande esquema”, o
pensamento conspiratório, onde os acidentes e catástrofes começam a parecer
intencionados. Não são: são só acidentes. E o acaso é foda mesmo. Existem as
mutilações resultantes de desordens crônicas, doenças que evoluem até o ponto
que exigem a extirpação de algo. Como os acidentes, também parecem algum tipo de
injustiça cósmica. Muito frequentemente (quase todo mundo que eu conheço) tenta
achar responsáveis: culpa de alguém. Na grande maioria das vezes, acaba
encontrando em si mesmo esse responsável, entrando numa horrível bad trip de
culpa. E essa, eu acho, é a principal armadilha. Seja com um racicínio mais
sofisticado, como explicar a doença como uma “trava” qualquer na própria vida ou
alma, ou com um discurso religioso, em que a perda é punição divina, culpa é
sempre culpa e é a pior viagem.
Quando a mutilação é muito associada a algo que fizemos mesmo, a inevitável
culpa vem junto com vergonha e humilhação. Então, o círculo vicioso da auto-flagelação,
do sacrifício do “envólucro terrestre”, desse corpo com o qual temos uma relação
tão ambivalente, se perpetua.
Tudo que tenho a dizer aqui é que aprendi algo com os veteranos de guerra. Vivi
num país onde existem muitos. Não é fácil para eles sair na rua com pernas e
braços faltando ou profundas marcas na pele. Cada um tem uma história, mas a
maioria acaba num equilíbrio entre se adaptar à vida com aquilo e portar as
marcas visíveis com certo orgulho: “sim, enquanto todos estavam aqui na boa eu
estava me fodendo na lama, com uma bala no maxilar, e daí?”.
Assim, para mim, as marcas que acumulamos são cicatrizes de guerra. Uma guerra
que todos com alguma coragem travam: a guerra por crescer, por resistir à
neutralização da nossa condição humana, a guerra contra as forças que nos
empurram para a degeneração e para a morte. Essa guerra inclui batalhas diversas.
Se temos uma cicatriz, é porque ganhamos uma batalha.
É desse jeito que eu encaro as minhas: batalhas que venci. Não sem perdas, não
sem dores, não sem mutilações. Mas venci: de cada uma, saí uma Marilia melhor,
mesmo que com algum pedaço a menos.
São lutas numa guerra estranha, em que se luta não apenas para se permanecer
vivo, mas para se tornar um ser humano mais pleno e mais vivo. Às vezes,
paradoxalmente, é preciso morrer um pouco para se viver de verdade.