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Este é o espaço para Artes Marciais do Renato César Trivia. Renato é atleta e professor de artes marciais e está escrevendo um livro sobre o assunto, abordado do ponto de vista de sua especialidade profissional, que é a engenharia. Renato tem uma longa vivência nas Artes Marciais em geral e sua missão é educar as pessoas quanto ao mundo fascinante destas tradições. Aqui você encontra textos, artigos, links e informações reunidos pelo Renato para ajudá-lo a melhor navegar por este mundo de ponte entre continentes, culturas e práticas corporais. | ![]() |
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Uma entrevista dada pelo Renato à Marília
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Oi, Marilia! Meu nome é Renato César Trivia, tenho 22 anos e sou natural de Avaré-SP. Aos 17 anos saí de casa e vim morar em Florianópolis-SC, pra tentar realizar meu sonho de estudar Engenharia Mecânica na Universidade Federal de Santa Catarina. Depois de um cursinho semi-extensivo, consegui ingressar na UFSC, e hoje estou no 5º ano do meu curso. Desde então tenho morado sozinho, e devo muito do meu amadurecimento pessoal a isso. Aprendi a cozinhar, lavar, limpar, trabalhar, correr atrás dos sonhos, coisas que até então nunca tinha feito! Eu diria que, nesses meus últimos cinco anos, fiz muito: duas faculdades ao mesmo tempo (sendo que acabei trancando o curso de Design de Produtos no CEFET-SC, por não conseguir conciliar ambos). Também fui Monitor de Cálculo Numérico na UFSC, Gerente de Marketing da i9 Consultoria, Consultor de Engenharia e Professor Particular de Física e Matemática; além, é claro, da minha vida marcial como instrutor e praticante. Ambicioso? Bastante!
Comecei a praticar arte marcial aos 5 anos de idade, com o Karatê estilo Shotokan. Fui impulsionado a aprender arte marcial por incentivo dos meus pais e professores do colégio, pois quando criança era aquele garoto “gordinho”, pacífico e de baixa auto-estima; o alvo preferido das brincadeiras de mau gosto dos colegas! Infelizmente não fui bem sucedido no Karatê, em virtude da minha imaturidade e da falta de experiência do instrutor para ensinar crianças. Após reprovar logo no primeiro exame de faixa, me senti desestimulado, e resolvi parar de lutar. Meu pai foi meu grande incentivador; sempre assistíamos filmes de artes marciais; Bruce Lee, Van Damme, Chuck Norris, Steven Seagal e outros artistas marciais da época aumentaram bastante meu interesse, e aos 9 anos de idade comecei a praticar o Tae Kwon Do (WTF). Um pouco mais maduro, comecei a me desenvolver nesse estilo, e aos 13 anos de idade já era faixa vermelha (8ª faixa, das 10 faixas existentes). Dos 13 aos 16 anos pratiquei Full Contact (1 ano) e Jiu-Jitsu (1 ano). Lembro-me bem dessa época, pois foi quando o Vale-Tudo começou a crescer. Vivia alugando as fitas VHS dos primeiros campeonatos de artes marciais UFC (Ultimate Fighting Championship) e Pride, e me tornei fã de lutadores como Rickson e Royce Gracie (Jiu-Jitsu), Ken Shamrock (Pancrase), Marco Ruas (Ruas Vale-Tudo), Vitor Belfort (Boxe e Jiu-Jitsu) e Dan Severn (Luta Greco-Romana)! Depois do Jiu-Jitsu iniciei a prática de musculação, e na mesma academia conheci a Luta de Braço (ou Braço de Ferro). Nessa fase da adolescência meus objetivos já eram outros, então decidi pausar a vida marcial pra me dedicar à hipertrofia e esportes de força, ainda em Avaré-SP. Em Florianópolis-SC continuei a musculação, e na academia tive a oportunidade de assistir uma aula de Luta Livre (Wrestling). Achei aquilo muito interessante, pois combinava bem o estilo marcial (luta) com os esportes de força que eu tanto gostava. Infelizmente, após quatro meses de prática meu professor se mudou para o Rio de Janeiro, e tive que interromper o treinamento por falta de instrutor. Aos 18 anos senti vontade, pela primeira vez, de escolher algum estilo e ir até o fim! Então escolhi o Tae Kwon Do, que era a luta que eu tinha praticado por mais tempo. Voltei a treinar, participei de diversos campeonatos como atleta e também como árbitro, entre eles o Campeonato Estadual de Taekwondo e o Floripa Open de Taekwondo. Comecei um treinamento em paralelo com o Ninjutsu, mas não conseguia mais conciliar as bases coreanas e japonesas, e por esse motivo desisti do Ninjutsu. Aos 20 anos de idade me tornei faixa preta de Tae Kwon Do. Ensino Tae Kwon Do há 2 anos, e uma vez professor, me tornei curioso para conhecer outros estilos que jamais havia praticado: Hap Ki Do, Ai Ki Do, Muay Thai, Krav Magá e Kung Fu são alguns desses. Pesquisando e observando estas artes, comecei a “sugar” aquilo que me interessava, adaptando sempre ao meu estilo. Desta vez, entretanto, não aprendi em academias, e sim de maneira autodidata: baixando vídeos da internet, conversando com professores, discutindo em fóruns especializados, etc. Recentemente me interessei em lutar com professores e atletas de outros estilos. Não só para testar aquilo que aprendi, mas também para conhecer e aprender os pontos fortes e fracos de cada arte. Há pouco mais de um mês iniciei um projeto com três alunos (dois homens e uma mulher), para ensinar “um pouco de cada coisa”, e observar como estes de desenvolvem, comparados com os outros alunos que tenho de Tae Kwon Do. Trata-se de uma experiência pessoal, um método empírico de comparar o MMA (Mixed Martial Arts) com as artes tradicionais.
a) Depois de muita reflexão acerca de toda a filosofia por trás da arte marcial, penso que se trata de um conjunto de métodos e técnicas que levam como objetivo máximo a perfeição. É um processo de “auto-lapidação”, através do aprendizado de novas técnicas de combate, repetição de movimentos, alongamentos musculares, exercícios de respiração e concentração, ensinamentos morais e filosóficos, entre outros. Com isso, o praticante consegue trabalhar corpo e mente, em busca de um ponto ótimo.
b) Quanto ao meu papel no esporte, acredito que estou em um processo de evolução constante, e dependendo do meu estado pessoal, me dedico mais como atleta, como professor, ou como pesquisador. Atualmente me considero um estudioso de artes marciais!
c) Minha rotina com relação ao esporte varia de acordo com os horários disponíveis na academia. Estou sempre adaptando meus horários, pra tentar encaixar com as horas vagas dos alunos. Em função disso, dificilmente tenho tempo pra praticar sozinho, e meu treinamento pessoal basicamente se resume às aulas que ministro. São raras as vezes que consigo ir à academia nos fins de semana, sozinho, pra chutar o saco de pancadas!
e) Falar sobre a evolução das artes marciais com certeza é um dos assuntos mais polêmicos que conheço! Primeiramente porque algo tão antigo quanto arte marcial não poderia deixar de ser vinculado a diversas lendas e mitos, que associadas à cultura e crenças de determinados povos, certamente geram discussões. Vou expor, dessa forma, meus pensamentos acerca do assunto, e deixo claro que não se trata de uma verdade universal, e sim de uma idéia pessoal! A palavra Arte deriva do latim “Ars”, que significa tudo que se pode imaginar, criar, inventar, acomodar ou adaptar. Marcial vem de Marte, Deus da Guerra na mitologia romana. Ora, as guerras são tão antigas quanto o próprio homem, portanto, a partir do momento que o primeiro hominídeo utilizou um pedaço de pau ou osso pra atacar outro animal ou ser da mesma espécie, pode-se associar a isto um princípio de arte marcial. As guerras ao longo da História mudaram conceitos, culturas, espaços geográficos, comércio, arte e ciência. Assim sendo, de acordo com o período da História que se usa como referência, as artes marciais tiveram diferentes focos, estilo e público alvo, mas jamais deixaram de existir, ou de ter grande importância. Cada estilo teve sua finalidade em determinado meio, e seu desenvolvimento se deve não só ao biótipo da nação que o praticava, mas também pelo tipo de combate, de acordo com a cultura de cada um, e também do próprio terreno (relevo), onde eram praticadas. Como exemplo, podemos comparar o Karatê com o Tae Kwon Do, duas artes marciais com muitas semelhanças, mas que surgiram em nações diferentes, e em épocas diferentes. O Karatê é uma arte japonesa, com bases geralmente rígidas e movimentos de impacto. Não é muito freqüente a utilização de movimentos aéreos. Já o Tae Kwon Do, nascido na Coréia, costuma apresentar movimentos mais acrobáticos, com muitos giros de quadris e chutes “voando”. Uma das possíveis explicações para essas diferenças reside no relevo de ambos os países. A Coréia tem um terreno mais montanhoso, com muitos planaltos, o que facilitaria os saltos. Conta a lenda que os coreanos desenvolveram essas técnicas aéreas de chutes para derrubar os samurais japoneses dos cavalos, e para isso ficavam escondido nos altos dos morros. Já a nobreza no Japão utilizava movimentos mais firmes e que gastassem menos energia, uma vez que utilizavam roupas pesadas (muitas vezes armaduras). Outro exemplo, de influência da cultura, se deve às diferentes técnicas de desembainhar a espada, gerando inúmeros tipos de artes de esgrima, de acordo com as tradições de cada povo. Vejo sempre em fóruns e bate-papo sobre artes marciais a galera comentando que “Muay Thai é melhor que Jiu-Jitsu”, ou que “Kung Fu é melhor que Krav-Magá”, por exemplo, o que sinceramente acho uma grande besteira. Cada arte marcial teve sua importância em determinado momento da História. O Muay Thai foi muito útil pra defender os tailandeses das nações vizinhas, e algumas técnicas ancestrais do Jiu-Jitsu (o Ju-Jutsu), protegeram com eficiência os monges indianos de saqueadores. Kung Fu foi o berço das artes marciais orientais, e até hoje é utilizado como treinamento militar na China; já o Krav-Magá faz parte das técnicas militares Israelenses. Não é possível comparar artes marciais diferentes, e sim lutadores diferentes! Quando se coloca um Wrestler para enfrentar um Boxeador, por exemplo, mais importante que a técnica que cada um desenvolve é o preparo físico e mental de cada combatente. Atualmente, observa-se que as artes tendem a evoluir pro combate um contra um, em ringues fechados, com poucas regras e geralmente sem armas. São os chamados campeonatos de Vale-Tudo ou MMA (Mixed Martial Arts). Nunca a mistura entre lutas diferentes foi tão grande, e academias do mundo todo tentam combinar técnicas mistas, a fim de desenvolver um estilo universal e potente. Os mais conservadores são contra, dizendo que a experiência adquirida pelos anos de cada Arte Marcial Milenar é mais eficiente do que misturar lutas distintas. Já a nova legião de praticantes do MMA defende a teoria de que o importante é treinar apenas algumas técnicas de cada estilo, que são úteis praquele objetivo (combate desarmado 1x1). Eu, como expectador, fico em cima do muro, pois apesar da grande eficiência que o MMA tem demonstrado em campeonatos, acredito que isso facilite o surgimento de instrutores “pilantras”, que se dizem conhecedores de “trocentas” artes diferentes. Com o MMA, fica mais difícil para as federações fiscalizarem a ação dos instrutores, uma vez que existe uma federação diferente para cada tipo de luta. Além disso, existe um problema sério que é o da violência gratuita (briga de rua), que vemos todo dia em bares, clubes, casas noturnas e até mesmo em colégios. Quando a preocupação em “ensinar a bater” é maior do que “ensinar quando e porque bater”, o resultado certamente é uma fatalidade, e as conseqüências são desastrosas. Acredito, por fim, que as técnicas podem ser combinadas entre estilos distintos, desde que não se esqueça jamais a grande regra comum a todas as artes marciais: o respeito.
a) Não só no Brasil, como no mundo todo, as artes marciais são organizadas através de Confederações, Federações e Associações. Cada arte marcial tem fiscalização distinta, e em muitos casos, se dentro da própria arte marcial existir estilos diferentes, estes também podem apresentar seus próprios órgãos de controle. Geralmente, existe uma sede de cada arte marcial, em um lugar do mundo (o mais comum é que seja no país de origem). Essa sede controla as Confederações, responsáveis pela fiscalização dentro de todo o território nacional. Cada estado de um mesmo país tem sua própria Federação, que por sua vez controla as Associações. Cada Associação presta auxílio a um grupo de academias. Esses órgãos, além de fiscalizar, oferecem cursos a professores e alunos, organizam campeonatos, realizam exames de faixa, divulgam o esporte, prestam trabalhos comunitários e educativos, entre outros. b) As dificuldades são as mesmas de qualquer outro esporte. Em um campeonato, por exemplo, precisam-se pagar árbitros, transporte de equipamentos, aluguel de ginásio, material de divulgação, transporte de atletas, premiações, etc. Sem a ajuda de patrocínios e das Secretarias de Esporte, na maioria das vezes se torna inviável. c) Os patrocínios são de importância fundamental pra qualquer esporte. Quem patrocina artes marciais geralmente são lojas de equipamentos esportivos, farmácias, laboratórios de suplementos alimentares, revistas especializadas, academias, entre outros. As secretárias do esporte e a prefeitura dos municípios também são de importância fundamental, e sempre que possível colaboram com transporte de atletas, liberação de ginásios, verba, etc.
Meu objetivo dentro das artes marciais é um só: passar a bola pra frente! Acredito que, nesses anos todos, aprendi muita coisa, não só como atleta, mas também como professor e como pesquisador. Devo muito da minha formação moral a isso. Os amigos que conquistei dentro das academias, os lugares que viajei praticando e participando de campeonatos, as vitórias alcançadas, as derrotas sofridas, tudo isso me tornou o homem que sou hoje, bastante diferente do garoto sem auto-estima que apanhava na escola. Acredito que as artes marciais, quando bem ensinadas, e quando bem praticadas, podem sim transformar atitudes, e contribuir seriamente na formação do indivíduo. Entre todas as vitórias que conquistei praticando artes marciais, as mais importantes com certeza foram: tornar-me um homem forte e respeitado, e ver meus alunos crescendo, melhorando a cada dia, como pessoas e como atletas. Esse certamente é o maior presente que um instrutor pode ganhar: ver seu discípulo superá-lo. Por isso, acredito que, se até o final de minha vida, algum aluno conseguir ser melhor e mais forte do que eu – como atleta, como pessoa e/ou como professor – com certeza terei cumprido minha missão.
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