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O corpo marginalizado
Sobre meninos e aranhas (http://mariliacoutinho.livejournal.com/15687.html)
(texto inserido no blog dia 18 de fevereiro de 2006)
Quero
falar sobre meninos, aranhas, teias e as “iron arts”. Mas, antes de mais nada,
este texto é sobre uma teia.
Hoje fiz uma visita à Roldan, a academia mais antiga do Brasil, que fica quase
na esquina mais célebre, controversa, paradoxal e desconsertante do país: Av.
Ipiranga com São João, centro de São Paulo, sítio de deslumbramento e de
tragédia nas letras de Paulo Vanzolini e Caetano Veloso.
A Roldan fica no 3º andar de um edifício antigo. No segundo, há uma sex-shop.
Tem todo tipo de gente por ali: prostitutas, trabalhadores do comércio pobre da
região, policiais, entre milhares de outros “tipos”.
Fui lá para fotografar dumbells antigos, imagens para o projeto gráfico do meu
(iron) brother Stevie, fundador da comuna-orkut Bodybuilding-brasil (http://www.orkut.com/Community.aspx?cm
Na Roldan, encontrei dumbells de todos os tipos e tamanhos, fiz muitas imagens,
tudo com a ajuda do professor Marcão. Marcão é professor de muculação e Muai-Tai,
mergulhador, Ph.D. na arte de viver e desenvolve projetos ligados à qualidade de
vida. Enquanto ele me ajudava na “produção” das imagens, sugeria ângulos e
arranjos, me falou um bocado sobre a relação entre nosso estilo de vida e a
qualidade dela, e o quanto de contribuição isso representa para o mundo em geral.
Marcão é o “nó no. 2” da teia.
Saí da Roldan, feliz da vida com minhas preciosas imagens e meu novo amigo, com
o mp3 na orelha e mochila nas costas, uma atitude totalmente absurda para aquela
região perigosíssima, violenta e hostil. Nasci e cresci em São Paulo, não sou
propriamente uma retardada, e, portanto, não teria nenhum motivo para me
comportar dessa meneira imbecil. Mas por algum motivo, foi assim que caminhei –
e caminhei muito, usei o Metro, fui até V. Mariana e voltei.
Peguei meu carro, estacionado na Cons. Crispiniano e segui em direção à Paulista,
com os vidros abertos, mp3 ainda na orelha, ouvindo rockão pesado, com a cabeça
no projeto gráfico e tantos outros projetos que aquela manhã me inspirava.
Chegando na Ipiranga, fui assaltada. Era óbvio que seria: vidro aberto, mulher
desatenta, som na orelha... É como se eu gritasse pela janela: “assaltem-me”. E
vieram, uma penca deles. Eram uns sete ou oito meninos, eu diria que entre 12 e
18 anos, embora parecessem crianças pequenas. Seus bracinhos eram tão finos
quanto meus punhos, meleca no nariz, remela nos olhos e ar assustado. Falavam
baixinho, um pequenininho era o líder: “dá o dinheiro, a gente só quer o
dinheiro, passa logo se não a gente te fura...” Os meninos são o “nó no. 3” da
teia.
Na hora, é inevitável: quando a gente se dá conta de que estão fazendo uma
proposta para a gente que implica em uma ameaça de morte, dá aquela gelada geral.
Mas eu fiquei calma e pedi a eles o mesmo. Disse que faria o que eles pediam e
comecei a buscar na minha mochila. Minha mochila tinha tudo: blusa, potinhos de
whey, uma câmera digital de 5.1Mpixels, um celular novinho e muitas outras
coisas que valiam bem mais do que a nota de 50 que eu tinha na carteira.
Carteira que eu não achava na bagunça. Eles tentavam me apressar dizendo que
iriam me cortar se eu não pegasse logo a grana, que o sinal ia abrir... Pensei
bem e conclui que era um risco real. Mas que, diante dele, o máximo que eu podia
fazer era colaborar e tentar encontrar a maldita carteira, e que, se eles se
desesperassem e tivessem um ataque de ódio, eu morreria. E se morresse? Bem,
azar: tinha sido um dia legal, foi uma vida legal e seria uma pena, porque
estava ficando cada vez mais legal. Mas tudo bem, também, porque valeu, puxa,
até que foi bom ter sido tão porra-louca, já imaginou se eu tivesse sido
certinha? Ia ficar muito puta naquele momento, sabendo que iria morrer sem ter
vivido a maior parte das coisas que valem a pena na vida. Que bom que não fui.
Enquanto tinha esses pensamentos filosóficos, esvaziava a mochila. Cairam três
objetos importantes: dois frascos de iogurte com frutas e um ingresso usado para
o Instituto Butantã, que guardei pela linda ilustração de aranha, uma Loxosceles
gaucho.
Me dei conta de que os bracinhos dos meninos entrando pela minha janela
lembravam as pernas da Loxosceles. Meninhos-aranhas, tão magrinhos e sem força,
tão sem força e sem dignidade, que só restou a eles buscar algum dinheiro com
uma mulher claramente não-rica, mas descuidada. Cuja vida realmente não importa
nada a eles. Cujo dinheiro talvez fosse o suficiente para supri-los do que quer
que seja que eles precisem cheirar, fumar ou tomar para anestesiar a fome, a
raiva e o absurdo de viver a vida que vivem.
A Loxosceles é o “nó no. 4”.
O sinal abriu, os meninos foram desencanando de mim, saindo aos poucos. Um
último olhou para dentro e perguntou: “tia, você me dá pelo menos o danone?”.
Não exigiu. Não ameaçou. Só pediu. Eu entreguei os frascos para ele e respondi:
“mas é claro!”. E ele disse: “brigado, tia. Desculpa aí. E vai com deus, que
deus te acompanhe.” Eu olhei para ele, sorri e disse: “que é isso, na boa... se
cuida, e que deus acompanhe vocês também.”
Nem sei se acredito em deus. Mas pareceu a coisa certa a dizer ali. Eu não
poderia acompanhá-los, os pais deles certamente haviam desistido disso há anos e
o Estado... Bem, o Estado nunca acompanhou nem acompanhará nenhum deles. Sobra
deus, se existir. Tomara que exista.
Aquilo ficou na minha cabeça enquanto eu dirigia, agora futilmente com os vidros
fechados. Alguém precisaria acompanhar esses meninos-aranhas. Os nós da teia
começaram a se alinhavar.
Pensei na Roldan e em tantas outras academias simples, algumas totalmente
underground, nos segundos e terceiros andares de edifícios comerciais de regiões
complicadas de São Paulo. Bem na frente de onde se reunem os grupinhos de
meninos-aranhas. Pensei nos bracinhos deles, na falta de grana, dignidade e
força – força em todos os sentidos. Imaginei o que aconteceria se fosse possível
dar a eles um pouco disso ao que todo ser humano deveria ter direito. Sei lá...
Se fosse possível dar pelo menos umas 40g a mais de proteína a eles por dia, um
pouco de leite e ovo, proteína barata, e permitir que eles fizessem algo com
seus bracinhos e perninhas de aranha. Que pudessem puxar os dumbells que eu
acabava de fotografar.
Pensei no whey que tinha ficado no potinho na minha mochila, na minha dieta
hiper-proteica, no dia em que decidi projetá-la, em que meu outro (iron)
brother, Jaka, me disse que eu estava ingerindo pouca proteína. Pensei nas
minhas quase 200g de proteína por dia, nas provavelmente menos de 50g de
proteína semanais dos meninos-aranha, na academia-serviço-social que um dia o
Jaka tocou em Novo Hamburgo. Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul,
gaúcho. Loxoscelles gaucho. Jaka, o “nó no. 5”.
Meninos-aranhas. Bodybuilding, uma possível porta para a dignidade. Brasil, país
dos meninos-aranhas. Bodybuilding-brasil, a comuna do orkut. Orkut: “Você está
conectado a 13.377.542 pessoas através de 320 amigos. Aumente sua rede agora
mesmo!”, diz minha home-page. A Bodybuilding-brasil é o “nó no. 6”.
Cheguei ao meu próximo destino, a casa da minha amiga Ana, que passou por uma
histerectomia. Que sofreu tanto com um longo desentendimento com seu próprio
corpo e agora espera um programa de dieta e exercícios que eu prometi montar
para ela. A Ana é o nó. no. 7.
E eu sou o nó no. 8. O último nó da teia.
Uma teia de responsabilidades e trajetórias, destinos, aventuras e desafios que,
no fim, une os meninos-aranhas, as academias dos terceiros andares, meus
iron-brothers, talvez 13.377.542 pessoas e... eu.