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Saúde mental e atividade física
Uma questão negligenciada
A maior parte do material desta página pode ser comentado no blog, cujo url aparece entre parênteses na frente do título.
Depressão e meditação – bola na rede para a Época
Formas mais assustadoras de alienação corporal
A pobreza argumentativa da "dependência de exercícios
Trivializando o conceito de dependência na base do preconceito
Depressão e meditação – bola na rede para a Época (http://mariliacoutinho.livejournal.com/15347.html?mode=reply)
A edição do dia 6 de fevereiro da revista
Época, no. 403, 2006, tem como matéria de capa “Depressão – novas pesquisas
afirmam que a meditação pode substituir – ou complementar – os antidepressivos”.
Tânia Nogueira, Suzane Frutuoso e Renata Leal, as autoras, foram corajosas e
cautelosas do título ao ponto final. No título, passa desapercebido o que para
mim saltou aos olhos na banca como um verdadeiro ato de heroismo, a coragem que
beira o perigo: “… pode SUBSTITUIR -…”. Tudo bem, veio seguido do cauteloso e
correto “ou complementar”. Mas tiveram a coragem de afirmar que, pelo menos é
possível que, em determinadas circunstâncias, em determinados casos, a meditação
possa libertar o paciente da prisão farmacológica. Não sei como isso passou. O
braço da indústria farmacêutica é comprido e tentaculado. Seus fiéis guardiões,
os psiquiatras mainstream, devem ter percebido o que percebi e reagido – tarde
demais. A revista teve coragem de abrir essa brecha ao público de pacientes. Uma
vez li uma entrevista da psiquiatra e templária da indústria farmacêutica
Patrícia Hochgraff afirmando que era um crime divulgar a “falsa idéia” de que
qualquer outro tratamento que não o farmacológico poderia ser empregado em
desordens de humor – no caso, ela atacava o emprego terapêutico da atividade
física como tratamento exclusivo.
No texto, há uma breve, porém informativa entrevista com Richard Davidson, que
pesquisa o tema há anos e ao longo do texto da reportagem, citações de outras
pesquisas feitas em laboratórios estrangeiros.
A reportagem é cautelosa em advertir que os mecanismos fisiológicos precisos que
tornam a prática da meditação eficiente no combate à depressão não são
plenamente conhecidos. Na verdade, mal começam a ser conhecidos. Também achei
importante frisar que os benefícios duradouros só podem ser observados a longo
prazo e que modificações nos padrões cerebrais só são conhecidas em praticantes
crônicos e antigos.
Numa frase da reportagem, compara-se o efeito da meditação ao da atividade
física.
Eu diria que, entre as duas, há mais do que o efeito terapêutico em comum. Há o
desconhecimento das bases fisiológicas e neuro-químicas, frutos de um
desinteresse da comunidade científica que não tenho dúvidas em afirmar ser
produto dos fortes interesses da indústria farmacêutica.
Espero que a Época continue na linha de abordar estas questões com coragem e que
a próxima reportagem seja sobre os efeitos da atividade física sobre as
desordens mentais, onde as conclusões não serão muito diferentes: existem, são
importantes, mas ninguém sabe realmente como acontece…
Formas mais assustadoras de alienação corporal (http://mariliacoutinho.livejournal.com/12315.html?mode=reply)
Num dos últimos dias do ano passado, saí
para jantar com um amigo. Ele havia ficado sumamente preocupado com minha
decisão de abandonar o uso de medicamentos.
“Mas e os riscos?”
“Sim, existem, são sérios.”
“Mas como você assume riscos, assim, contra a recomendação de um profissional?”
“Simples: o critério é a minha felicidade. Passei uma vida infeliz, com um ano
razoável, o ano de 1977, quando pratiquei meu esporte de eleição de forma quase
profissional, muitas horas por dia. Depois disso, voltei a ser feliz novamente
em 2004, quando passei novamente a praticar meu esporte de maneira intensa, sem
utilizar nenhum medicamento. Vida com atividade física, feliz. Vida sem
atividade física, infeliz. Vida com medicamento, infeliz. Vida sem medicamento,
feliz. Simples.”
“Mas e se você morrer?”
“Daí morri. Não importa. O que importa é viver. Portanto, faço o que devo para
viver bem – a morte, bem, foda-se a morte.”
“Mas isso é absurdo!”
“Não, não é. Eu estou feliz assim e isso é o que importa.”
“Mas não é você que tem que saber isso.”
”Não??!! Quem pode saber se eu estou feliz, então, se não eu??”
“Um profissional.”
”Um profissional????!!! Como assim??”
“Um profissional, um psiquiatra é quem deve saber...”
”Um psiquiatra tem autoridade para dizer se eu estou FELIZ ou INFELIZ?????”
“Sim, ele sabe fazer as perguntas certas e...”
“Não, sério: você jura que seriamente acredita que um outro indivíduo, fora você,
tem competência e autoridade para declarar se você está ou não está FELIZ???”
“Sim... não...”
Diante da minha incredulidade, espanto e até sorriso de quem estava se
divertindo com o ridículo da afirmação, meu amigo deu uma recuada. Meu amigo é
uma das pessoas mais inteligentes que conheço, cientista brilhante, de grande
prestígio. Ao longo da nossa conversa, adotou um tom menos normativo, mas sua
primeira reação é o que importa para essa crônica, porque foi espontânea e
reflete uma atitude automática dos membros da nossa elite simbólica (quem
profissional e oficialmente pensa “na” e “a” nossa sociedade). E isso é
assustador: não apenas permite-se à psiquiatria patologizar comportamentos
coletivos e culturalmente codificados, coisa que denunciei em outro post, como,
percebo, se delega a ela a autoridade sobre questões de natureza
inalienavelmente pessoal e individual, de caráter ético, existencial e
profundamente íntimo.
Isso, sim, é assustador.
Isso, sim, reflete o avanço de uma pseudo-disciplina, movida por agendas ocultas
das mais perversas (inclusive aquelas que partilha com a indústria farmacêutica),
para a esfera do controle dos comportamentos individuais.
Isso é Big Brother.
Isso é a total e completa alienação de nós mesmos – de nosso sexo, nossos
músculos, nossos estômagos, nossas formas e, finalmente, nossos cérebros.
A pobreza argumentativa da "dependência de exercícios ( http://mariliacoutinho.livejournal.com/8294.html?mode=reply)
Tendo explorado um pouco o conceito de
DEPENDÊNCIA, podemos examinar o conceito de DEPENDÊNCIA DE ATIVIDADE FÍSICA ou
de EXERCÍCIOS. A idéia de que existe uma “dose excessiva” de exercícios que pode
causar ou estar relacionada a comportamentos compulsivos e consequências
deletérias nasceu nos anos 70. Baekeland demonstrou que praticantes regulares de
atividade física resistem fortemente a interromper sua rotina de exercícios e
que sofrem alterações fisiológicas se privados dela, o que parece bastante
intuitivo e ainda não me convence de que há algo de errado com a coisa toda (Baekeland
F. Exercise deprivation. Sleep and psychological reactions. Arch Gen Psychiatry
1970;22:365-9.) .
Um pesquisador de bom senso, Glasser, cunhou o termo “positive addiction” para
designar esse tipo de “dependência” (Glasser W. Exercise addiction. New York:
Harper & Row, 1976.), reconhecendo que existe, de fato, um padrão de adaptação
fisiológica e psicológica, mas que não provocava consequências negativas ao
praticante. Em 1979 veio a resposta: Morgan introduziu o termo “negative
addiction”, para apontar especificamente para as consequências negativas da
“dependência do exercício” (Morgan WP. Negative addiction in runners. Phys
Sports Med 1979;7). E foi isso que ficou. Ninguém mais fala de positive
addiction.
Segundo DeCoverley Veale (Decoverley Veale DMW. Exercise dependence. Br J Addict
1987;82: 735-40.) , a dependência de exercício poderia ser caracterizada pelos
seguintes critérios: “1) estreitamento do repertório, levando a um padrão
estereotipado
de exercícios uma ou mais vezes por dia; 2) saliência do comportamento de
praticar exercícios, dando prioridade sobre outras atividades, para que seja
mantido o padrão de exercícios; 3) aumento na tolerância à quantidade e
freqüência dos exercícios com o decorrer dos anos; 4) sintomas de abstinência
relacionados a transtornos de humor (irritabilidade, depressão, ansiedade,
etc.), quando interrompida a prática de exercícios; 5) alívio ou prevenção do
aparecimento de síndrome de abstinência por meio da prática de mais exercícios;
6) consciência subjetiva da compulsão
pela prática de exercícios; 7) rápida reinstalação dos padrões prévios de
exercícios e sintomas de abstinência após um período sem prática de exercícios”.
Por partes:
1) estreitamento do repertório, levando a um padrão estereotipado
de exercícios uma ou mais vezes por dia;
Excelência é baseada na especialização: tudo que se faz bem é feito às expensas
da diversificação. Assim é para tudo na vida. O bom especialista em reposição
hormonal no climatério é especialista em hormônios femininos NO climatério, EM
ginecologia, EM medicina.
O bom praticante de corrida treina técnica de passada, intervalo, explosão, faz
periodização, respeita treino ondulatório... Nada disso é possível se ele
praticar corrida, natação, volei e tênis.
Me pergunto que consequências negativas isso pode trazer ao praticante, exceto
se ele gostar muito de outros esportes e ficar ligeiramente frustrado por não
ter tempo de se dedicar a todos.
2) saliência do comportamento de praticar exercícios, dando prioridade sobre
outras atividades, para que seja mantido o padrão de exercícios;
Às vezes o trabalho é mais divertido, às vezes a atividade física, às vezes um
hobby qualquer. O que der mais prazer terá saliência e receberá prioridade na
ordem de relevância para o indivíduo. Exceto se isso levar o indivíduo a perder
seu emprego e se tornar disfuncional, não há base para caracterizar essa
priorização como deletéria ou patológica.
3) aumento na tolerância à quantidade e freqüência dos exercícios com o decorrer
dos anos;
Isso se chama “condicionamento”.
4) sintomas de abstinência relacionados a transtornos de humor (irritabilidade,
depressão, ansiedade, etc.), quando interrompida a prática de exercícios;
Vários estudos demonstram a influência dos exercícios físicos na produção de
serotonina e dopamina. Esse efeito é altamente benéfico. Com um pouco de
forçação de barra, podemos até pensar que seria a restauração do padrão
“original”, antes da introdução dos recursos tecnológicos que substituiram boa
parte do esforço muscular, lá longe no paleolítico.
Sedentarismo já é algo bastante patológico. É quase que intuitivo pensar que
suprimir uma atividade que regula a produção de serotonina e dopamina vai levar
o indivíduo a subir parede.
Ainda não consigo ver onde isso é deletério.
5) alívio ou prevenção do aparecimento de síndrome de abstinência por meio da
prática de mais exercícios;
Claro: a normalidade cerebral do praticante é restaurada e ele se sente bem
novamente.
6) consciência subjetiva da compulsão
pela prática de exercícios;
“Compulsão” é por conta de quem escreveu essa lista tendenciosa. Mas,
naturalmente, todo praticante assíduo sabe que é e sabe que seu padrão difere da
média da população. Em geral, sabe e se orgulha – ou seja: é ALTAMENTE
voluntário e deliberado esse comportamento. Nunca vi um praticante de exercício
reclamando: “puxa, preciso parar com isso, está me matando... vou tentar reduzir
para quatro corridinhas por semana, a partir de amanhã...”.
7) rápida reinstalação dos padrões prévios de exercícios e sintomas de
abstinência após um período sem prática de exercícios.
Que decorre da consciência anterior: o praticante sabe que faz bem para ele, que
lhe dá prazer e mantem sua saúde – naturalmente faz tudo que puder para
rastaurar sua condição favorável.
Muito ruim essa lista... Muito fácil de desconstruir.
Quem sabe aparece alguma coisa melhor.
Sobrepeso e desordem mental (http://mariliacoutinho.livejournal.com/7476.html?mode=reply)
Vários estudos nas últimas decadas
registraram uma relação entre obesidade e psicopatologia. Num estudo de 1994,
Telch e Agras (Telch CF, Agras WS., Obesity, binge eating and psychopathology:
are they related?, Int J Eat Disord. 1994 Jan;15(1):53-61.) identificaram uma
relação positiva entre as gravidades de “binge eating disorder” e dos sintomas
psiquiatricos observados. Um outro estudo longitudinal de grande impacto,
realizado ao longo de 20 anos e publicado o ano passado, confirmou a forte
associação entre sobrepeso e psicopatologia (Psychol Med. 2004
Aug;34(6):1047-57.The associations between psychopathology and being overweight:
a 20-year prospective study. Hasler G, Pine DS, Gamma A, Milos G, Ajdacic V,
Eich D, Rossler W, Angst J.). Num estudo de 1999, Cassidy e colaboradores
identificaram uma alta prevalência de diabetes melitus entre pacientes
portadores de desordem bipolar (Cassidy F, Ahearn E, Carroll BJ., Elevated
frequency of diabetes mellitus in hospitalized manic-depressive patients. Am J
Psychiatry. 1999 Sep;156(9):1417-20.). Além disso, entre os bipolares, os
diabéticos sofriam sintomas mais graves. Três hipóteses foram levantadas para
explicar esse quadro: problemas relacionados com o uso de corticóides por
diabéticos (que estimulariam mania), fatores genéticos associando duas formas de
disfuncionalidade e efeito dos medicamentos psicotrópicos. Não foram relatados
os dados relativos ao peso e composição corporal desses pacientes, nem tampouco
a correlação entre essas variáveis (peso/composição corporal, consumo de
psicotrópicos, diabetes e gravidade dos sintomas). Fica difícil ir muito longe
sem essa análise.
Por trás dessa relação perversa entre sobrepeso e desordem mental existem tabus.
O primeiro e mais complicado deles diz respeito ao uso de psicotrópicos. Uma vez,
um paciente grave (aposentado por invalidez), dos Estados Unidos, me disse:
“vamos parar com a hipocrisia: exceto por topamax (topiramato) e lamictal (lamotrigina),
todo o resto dessas coisas vai estufar você”. Ele tem razão: com raríssimas
exceções, os medicamentos psicotrópicos causam duas coisas: ganho de peso (e
ninguém tem interesse em identificar as causas desse ganho) e diminuição da
libido (conveniente a todos, já que doido não tem que trepar, mesmo). Pacientes
adultos portadores de desordem mental, hoje em dia, com a prescrição selvagem e
indiscriminada de psicotrópicos, geralmente não são mais “farmacologicamente
virgens”: são ou já foram tratados. A relação entre o consumo presente ou
passado dessas substâncias e o ganho de peso não é estudada – é tabu.
O outro tabu é a expressão, no corpo, de formas de violência. A relação entre
desordem mental e abuso (infantil ou não) é alta. Reagir ao abuso através da
deformação do próprio corpo com sobre-alimentação é outra relação conhecida, mas
não estudada adequadamente.
Existem outros tabus, que se complicam pela relação com a sexualidade, mas esses
eu deixo para depois.
Por que tabus? Porque não convem nem à comunidade médica nem à indústria
farmacêutica trazê-los à luz. São assuntos proibidos. O “custo” em quilos de
gordura inútil (e consequentemente em auto-imagem, sexualidade, etc.) para a
“estabilização” (sempre questionável) emocional proporcionada pelos
psicotrópicos é algo com o que os pacientes devem docilmente arcar, sem reclamar,
sob risco de serem violentamente repreendidos pela sociedade. A começar por seus
médicos.
Quanto tempo vamos aguentar, coniventes, essa violência silenciosa?