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 Primeiras idéias sobre suicídio

 

Decidi iniciar essa série sobre suicídio porque por algum motivo tenho a impressão de que não dá mais para me esquivar da tarefa. Durante a semana que se passou, três coisas muito significativas aconteceram quase que em seguida, como que projetadas e não obra do acaso: a mãe de um grande amigo meu cometeu suicídio por enforcamento; no dia seguinte, outro grande amigo meu me comunicou que foi abandonado pelo parceiro de trabalho por conta da depressão deste colega; dois dias depois, um terceiro grande amigo, muito jovem, me confidenciou ter tentado se matar e ser perseguido por ideações suicidas. Há uma expressão em inglês que traduz o que eu senti: “it hit too close to home” – chegou muito perto de casa. Eu sou uma sobrevivente de suicídio. Por definição, portanto, sou bem-sucedida (se não fosse, não estaria aqui escrevendo isso). Talvez seja minha parte nessa nova vida que me foi concedida (pelo acaso, pelo Nilson ou por Deus – dê o nome que quiser) retribuir meu sucesso com informação e apoio, que é que sei fazer de prático. No começo, vai parecer apenas uma reflexão epidemiológica: peço paciência – leiam adiante. Essa é a pessoa que eu sou, só sei pensar com dados. Mas com eles, faço minha própria poesia, expresso minha dor e também meu amor.

Esse preâmbulo será utilizado em todos os posts da série.

  Sendo uma pessoa que pensa com números, a primeira coisa que me ocorreu foi procurar entender que fenômeno é esse e quem somos nós, os suicidas. Busquei as estatísticas de óbitos por causas externas no Brasil no DATASUS e obtive o seguinte:

 Tabela 1

Óbitos por Causas Externas - Brasil

Óbitos p/Residênc por Grande Grupo CID10 e Ano do Óbito

Período:2000-2003

 

Grande Grupo CID10

2000

2001

2002

2003

X85-Y09 Agressões

45360

47943

49695

51043

V01-V99 Acidentes de transporte

29645

31031

33288

33620

W00-X59 Outras causas externas de lesões acident

23185

21049

21481

20998

Y10-Y34 Eventos cuja intenção é indeterminada

11934

11520

12557

11101

X60-X84 Lesões autoprovocadas voluntariamente

6780

7738

7726

7861

Y40-Y84 Complic assistência médica e cirúrgica

1177

1301

1394

1264

Y35-Y36 Intervenções legais e operações de guerra

73

89

121

491

Y85-Y89 Seqüelas de causas externas

243

283

288

279

Total

118397

120954

126550

126657

 No ano de 2003, os suicídios representaram 6,2% das mortes por causas externas. No ano anterior, 6,1%. Em 2001, 6,4%. E em 2000, 5,7%. Ou seja: não há uma tendência epidêmica no fenômeno, não estamos sendo varridos por uma onda de aumento de suicídios. É daqueles fenômenos constantes, que responde por uma proporção razoavelmente estável de óbitos (tabela 1). O que quer que esteja por trás disso, não está mudando muito com o tempo.

Mas olhando de perto as tendências dos tipos de auto-agressão que resultaram em mortes, vemos algumas tendências (tabela 2). Enquanto as mortes por enforcamento e estrangulamento aumentaram 20% em quatro anos, aquelas provocadas por ingestão voluntária de psicotrópicos aumentaram 300%. As mortes provocadas por pistolas e revólveres, afogamento e objeto contundente (facas), praticamente não sofreram mudanças.

 

Tabela 2

Óbitos por Causas Externas – Brasil - EVOLUÇÃO

Óbitos p/Ocorrênc por Categoria CID10 e Ano do Óbito

Categoria CID10: X60 Auto-int int analg antipir anti-reum n-opiac, X61 Auto-int int a-conv sed hip a-park psic NCOP, X62 Auto-intox intenc narcot psicodislept NCOP, X63 Auto-int int outr subst farm sist nerv auton, X64 Auto-int intenc out drog med subst b

Período:2000-2003

 

Categoria CID10 / ANO

2000

2001

2002

2003

X70 Lesao autoprov intenc enforc estrang sufoc

3490

4063

4031

4213

X74 Lesao autopr intenc disp outr arma fogo e NE

1007

1061

1037

978

X68 Auto-intox intenc a pesticidas

408

543

556

591

X69 Auto-int intenc outr prod quim subst noc NE

302

304

409

400

X84 Lesao autoprov intenc p/meios NE

358

379

320

346

X72 Lesao autoprov intenc disp arma fogo de mao

285

283

281

292

X80 Lesao autoprov intenc precip lugar elevado

152

201

207

213

X64 Auto-int intenc out drog med subst biolog NE

113

138

135

165

X78 Lesao autoprov intenc obj cortante  penetr

118

113

133

114

X76 Lesao autoprov intenc fumaca fogo e chamas

163

178

169

113

X79 Lesao autoprov intenc p/objeto contundente

120

105

111

95

X71 Lesao autoprov intenc p/afogamento submersao

81

111

99

87

X61 Auto-int int a-conv sed hip a-park psic NCOP

62

71

82

81

X73 Les autoprov int disp arm fog maior calibre

38

64

48

60

Y11 Env antic sed hipn antip psic NCOP int n det

18

29

33

37

X82 Lesao autoprov intenc impacto veic a motor

22

25

28

22

X65 Auto-intox voluntaria p/alcool

8

9

10

21

Y12 Envenen narcot psicodislept NCOP int n det

10

10

17

18

X83 Lesao autoprov intenc p/outr meios espec

15

31

16

17

X81 Lesao autoprov intenc precip perm obj movim

13

15

10

13

X62 Auto-intox intenc narcot psicodislept NCOP

3

4

11

12

 

De longe – muito longe – o método preferencial para suicídio é o enforcamento: 53,1% do total. A mãe do meu amigo, portanto é um caso típico. Todos os outros métodos são muito pouco importantes em comparação (tabela 3).

Tabela 3

Óbitos por Causas Externas – Brasil - PORCENTAGENS

Óbitos p/Ocorrênc por Categoria CID10 e Ano do Óbito

Categoria CID10: X60 Auto-int int analg antipir anti-reum n-opiac, X61 Auto-int int a-conv sed hip a-park psic NCOP, X62 Auto-intox intenc narcot psicodislept NCOP, X63 Auto-int int outr subst farm sist nerv auton, X64 Auto-int intenc out drog med subst b

Período: 2003

Categoria CID10

 

Causas / classificação SUS

No. ocorrências

porcentagem

X70 Lesao autoprov intenc enforc estrang sufoc

4213

53.14077

X74 Lesao autopr intenc disp outr arma fogo e NE

978

12.33602

X68 Auto-intox intenc a pesticidas

591

7.454591

X69 Auto-int intenc outr prod quim subst noc NE

400

5.045409

X84 Lesao autoprov intenc p/meios NE

346

4.364279

X72 Lesao autoprov intenc disp arma fogo de mao

292

3.683148

X80 Lesao autoprov intenc precip lugar elevado

213

2.68668

X64 Auto-int intenc out drog med subst biolog NE

165

2.081231

X78 Lesao autoprov intenc obj cortante  penetr

114

1.437941

X76 Lesao autoprov intenc fumaca fogo e chamas

113

1.425328

X79 Lesao autoprov intenc p/objeto contundente

95

1.198285

X71 Lesao autoprov intenc p/afogamento submersao

87

1.097376

X61 Auto-int int a-conv sed hip a-park psic NCOP

81

1.021695

X73 Les autoprov int disp arm fog maior calibre

60

0.756811

Y11 Env antic sed hipn antip psic NCOP int n det

37

0.4667

X82 Lesao autoprov intenc impacto veic a motor

22

0.277497

X65 Auto-intox voluntaria p/alcool

21

0.264884

Y12 Envenen narcot psicodislept NCOP int n det

18

0.227043

X83 Lesao autoprov intenc p/outr meios espec

17

0.21443

X81 Lesao autoprov intenc precip perm obj movim

13

0.163976

X62 Auto-intox intenc narcot psicodislept NCOP

12

0.151362

Y22 Disparo de pistola intencao nao determinada

10

0.126135

X67 Auto-intox intenc p/outr gases e vapores

8

0.100908

 Essas três tabelas me dizem algumas coisas, coisas que muita gente já sabe e concorda e outros não aceitam. A maior parte dos suicídios é consequência de momentos críticos de desordens mentais com incidência relativamente alta na população, particularmente depressão e desordem bi-polar. Essas desordens, se não controladas, resultam em episódios complexos, de expressão variada e baixa previsibilidade como categoria. Os vários estudos feitos sobre os “sinais” do suicídio não resultaram em medidas efetivas para reduzir seu impacto. Insisto: por mais que saibamos que suicidas sinalizam seus atos muito tempo antes de cometer a auto-agressão, como categoria, esses atos não são previsíveis.

 O que tenho certeza que vou falar de NOVO é que acredito, sim, que são previsíveis, mas num plano individual. Cada suicida tem um padrão. Esse padrão se expressa muito antes do evento “bem-sucedido”. Ele é reconhecível, é analisável, é compreensível e MUITO MAIS QUE ISSO: é controlável no plano individual. Minha convicção vem do fato de que eu sou uma sobrevivente de suicídio e portadora grave de desordem bi-polar. Caso estivesse nas garras da psiquiatria até hoje, estaria morta: ou morta-viva, mantida vegetando às custas de psicotrópicos como fui, ou morta-morta, porque usei e abusei de auto-mutilação durante todo o tempo em que fui “medicada”.

 Parte da responsabilidade sobre a manutenção desse estado, ao meu ver, é da própria psiquiatria, com sua atitude autoritária que subtrai ao portador a responsabilidade que ele pode e deve ter sobre sua desordem, e parte é do moralismo religioso de nossa sociedade. Se a cortina negra que cobre o suicídio fosse levantada, se pudéssemos divulgar os fatos a seu respeito e os suicidas potenciais pudessem aprender a reconhecer em si mesmos seus padrões, tenho certeza de que teríamos chances de reduzir essa mortalidade.

 A minha experiência e como eu aprendi a me monitorar, deixo para o próximo post.

 

 

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